Por Millena Câmara, psicóloga

Estávamos vivendo nossas vidas pseudoprevisíveis quando, de repente, fomos invadidos pela pandemia da Covid-19, escancarando nossas vulnerabilidades e falta de controle. Um mundo novo se instalou e tudo que conhecíamos parecia não mais funcionar para lidar com essa nova realidade.

Mortes, muitas mortes! Muitas histórias interrompidas, muitas famílias sofrendo, pessoas dilaceradas pela dor de perder pessoas amadas. Solidão, medo, isolamento. Nos vimos sozinhos e desamparados. Nem mesmo um abraço ou segurar na mão era mais possível. Gestos que tornavam as palavras desnecessárias.

Tivemos que esconder nossas bocas, mas não era possível silenciar. O medo do vírus, da doença, da morte, nos fez gritar por ajuda e com os olhos bem abertos passamos a ter que ver o que muitas vezes fugimos: o olhar para si, o olhar para o outro, o olhar para nossas relações, nossas fragilidades e nossa mortalidade.

Cuidar passou a ser sinônimo de ficar distante de quem amamos. Mas qual era a maior dificuldade? Não sabíamos dizer diante de tantas mudanças não esperadas e não desejadas.

Uma morte distante, sem possibilidade de segurar na mão e ficar junto até o fim, com rituais que precisavam ser rápidos e sem poder olhar e velar quem amamos, sem o abraço das pessoas, sem muitas presenças importantes devido a limitação de pessoas nos rituais. Se enfrentar a morte já era difícil, agora muitas faltas se somam e trazem mais desafios para a vivência desse luto, o qual passa a ter um significativo potencialmente complicador.

E não foi só para a morte que perdemos, mas também a forma de nos relacionar, o contato com as pessoas que amamos, nossa rotina, nossa forma de celebrar datas e ritualizar nossos mortos. Perdemos financeiramente, empregos e oportunidades foram suprimidas, tantas perdas, as quais exigiam de nós adaptação. Mas como se adaptar a tanta coisa em tão pouco tempo?

Exigências emocionais que nos levaram a sintomas de ansiedade, angústia, medos, fobias, obsessões por limpeza e com isso o cuidado com a saúde mental não pode ser deixado de lado, para além do cuidado com a saúde do corpo e todos os protocolos de prevenção para a não contaminação.

Múltiplas perdas, muitos lutos, alguns não reconhecidos, desvalorizados pela sociedade e, às vezes, por nós mesmos que não nos permitimos sofrer e tentamos “tocar” a vida. Mas da dor da perda, ninguém foge! Ela está em nós, dentro de nós, e vai conosco para onde formos.

Então, te convido a olhar para você, para essas dores e cuidar delas, com respeito e afeto. Pedindo ajuda quando sentir necessidade e fortalecendo os aspectos que podem contribuir nessa reconstrução.