Por Millena Câmara, psicóloga

A criança compreende a morte? A criança se enluta? Como a criança reage a perda?  Como ajudar uma criança enlutada? Muitas são as perguntas quando se trata de luto e criança. O sofrimento da criança desperta impotência e medo nos adultos que não sabem como lidar com as reações dela diante da perda de um ente querido, o que os leva a silenciar sobre o assunto.

A criança cria vínculos e sofre pelo rompimento dos mesmos, se enluta e reage a ausência de alguém amado.  O que muitas vezes confunde os adultos e os fazem pensar que a criança não vive o luto é a forma que expressa suas emoções. O choro, a tristeza, a raiva, o medo, a dificuldade de atenção e concentração, angústia da separação, agitação, agressividade, pesadelos, queda no rendimento escolar, dores, entre muitas outras reações que podem não ser claramente associadas a perda, pelo fato da criança não falar sobre suas dores da mesma forma que um adulto.

Importante ressaltar que a criança está em desenvolvimento cognitivo e sua compreensão sobre a morte acontecerá de acordo com a fase na qual ela está inserida, com as experiências e a forma como a família lida e aborda o tema. Por essa razão a criança vivencia o luto ao longo do seu desenvolvimento, retomando questões que, em fases anteriores, não tinham ainda sido levantadas. 

Falar sobre a morte é uma tarefa difícil para o adulto que acredita que pode fragilizar ainda mais a criança, o que não é verdade, pois a pessoa enlutada, independente da sua idade, precisa de informações coerentes e espaços de fala para a construção de significado diante do acontecimento, assim como para adaptação a essa nova vida sem a pessoa amada.

Não abrir espaços de conversa pode levar ao silêncio e isolamento, além do aumento do sentimento de insegurança, que trazem consequências mais graves levando o luto a transcorrer de forma não saudável. Entretanto, é preciso considerar que a linguagem deve ser coerente com a idade e grau de compreensão da criança, evitando metáforas e informações desnecessárias. Dessa forma, perguntar o que ela sabe e ouvir suas perguntas pode ser uma maneira de responder ao que de fato ela deseja saber.

Segundo o escritor J. William Worden, uma das referências nos estudos sobre luto, as crianças enlutadas precisam ter a segurança em pontos como: saber que serão cuidadas; que não causaram a morte em razão da sua raiva ou por suas deficiências; precisam de informações claras sobre a morte, causas e circunstâncias; precisam se sentir envolvidas e importantes; precisam de atividades rotineiras contínuas; de alguém que escute suas perguntas; e de formas de lembrar-se da pessoa amada que morreu.

Essas necessidades atendidas de forma acolhedora e afetiva, possibilita uma adaptação saudável a perda, com a vivência e expressão das emoções e reorganização da vida de forma a guardar as boas lembranças e integração a nova realidade.

Ajudar uma criança enlutada é reconhecer sua dor e validar suas emoções, oferecer informações e estar aberto as suas perguntas e a falar sobre o assunto sempre que sentir necessidade. É a naturalidade com que o adulto acolhe a criança e conversa sobre a morte que contribui para a criança se manter saudável diante de dores tão intensas e que não podem ser evitadas.

“O mundo das crianças não é tão risonho como se pensa, há medos e muitas experiências de perdas. Os adultos não gostam de falar disso, muito provavelmente para escaparem dessa dor” (Rubem Alves)